quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Guia politicamente incorreto da filosofia - Luiz Felipe Pondé

Antes de iniciar a leitura do Guia politicamente incorreto da filosofia, eu tinha a sensação de que o livro seria um pouco chato, apenas discorrendo sobre o quanto as vidas de alguns importantes filósofos não condizia com o que escreveram. Mas vi que não se trata nada disso...

O livro faz parte da coleção dos Guias politicamente incorretos. Seu autor, Luiz Felipe Pondé, é um escritor e filósofo pernambucano. Professor de algumas universidades em São Paulo, é também colunista do jornal Folha de S. Paulo.

O livro não é propriamente um tratado filosófico, mas pode servir como incentivo ao pensamento. Esse "ensaio de ironia" tem como tema central o que o autor chama de "a praga PC" - palavras e atitudes decorrente do "politicamente correto". O autor mostra a possível origem do politicamente correto, bem como sua (má) influência na moral e nos costumes contemporâneos.

Escrito de forma simples, o livro instiga a aprofundar o estudo sobre o quanto nossa sociedade - incluindo cada um de nós - está permeada de cinismo. E o quanto esse cinismo nos faz mal...

Indico muito a leitura do Guia. Mais do que concordar com o que foi escrito, é preciso lê-lo de forma questionadora: como está nossa vida, nossa sociedade?

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Roverandom - J.R.R. Tolkien

Incrível era o poder de criação de Tolkien. E essa capacidade se manifesta em Roverandom, uma obra destinada ao público infantil.

O britânico John Ronald Reuel Tolkien nasceu em Bloemfontein, África do Sul, em 1892. Formado em Letras, obteve o título de doutor em Letras e Filologia. Católico, teve sua obra profundamente influenciada pelos ensinamentos cristãos. Foi autor de obras admiráveis, como O Senhor dos Anéis O Hobbit. Aliás, essas duas obras fazem parte de um "mundo" criado por Tolkien, a Terra Média, povoada por seres fantásticos, muitos deles pertencendo a mitologias de alguns povos europeus. Junto com a criação das histórias e dos personagens, foram criadas línguas - com gramática e fonética próprias.

A ideia de escrever Roverandom surgiu de uma situação inusitada. Seu segundo filho, Michael, havia perdido um cachorro de brinquedo quando a família Tolkien foi passar férias no litoral. Michael era apaixonado pelo cão. Dormia com ele, tomava banho com ele, comia com ele. Com isso, pode-se perceber que o impacto da perda do brinquedo deve ter afetado Michael profundamente. A fim de consolá-lo, Tolkien inventou uma história... que, mais tarde, se transformou em uma obra mundialmente famosa.

Roverandom é uma obra destinada ao público infantil, embora possa ser admirada por leitores de todas as idades. Tudo se inicia quando Rover, um cão de verdade, irrita o mago Artaxerxes. Como punição, ele é transformado em um pequeno cachorro de porcelana. Buscando voltar ao normal, Rover vai atrás do mago, indo até a Lua e ao fundo do mar tentando encontrá-lo e pedir a ele que revertesse o encantamento.

De agradável leitura e cheio de jogos de palavras, Roverandom é um bom livro para se comprar para uma criança. Sua narrativa instiga a imaginação, conduzindo a mente a se aventurar junto de Rover. Deveria ser indicada pelas escolas, para estimular a criança a ler - sobretudo boas obras.  Talvez um adulto o ache um pouco cansativo, mas ainda assim vale a pena sua leitura.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Heróis de verdade - Roberto Shinyashiki

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



     De tempos em tempos, gosto de ler um ou outro livro de autoajuda. É importante ler algumas
frases que nos façam ter uma postura mais leve diante da vida. Com isso, decidi reler Heróis de Verdade, de Roberto Shinkyashiki.
      Shinkyashiki é um médico psiquiatra e terapeuta, que se tornou famoso por suas palestras e seus livros de autoajuda. Uma das coisas que mais me agrada em seus livros é a ausência de certo esoterismo. Nada de "poder interior", "cura quântica", ou qualquer coisa do tipo. Ele trata de coisas mais práticas, mais reais, como mudança de atitude frente a certas situações.

     Em Heróis de Verdade ele aborda algo que muito tem incomodado os seres humanos contemporâneos: a ânsia pela excelência. Achamos que precisamos ser bons em tudo. Mais ainda, que precisamos mostrar aos outros o quanto somos bons! Durante a leitura, me veio à mente o poema acima. Parece que todos temos uma vida imensamente maravilhosa. Que nenhum de nós erra. Pelo contrário, que todos somos fantásticos em tudo. Basta passearmos pelas redes sociais que veremos o quanto isso é perceptível. Consequências? Uma série de pessoas frustradas, por não atingirem seus objetivos. Por não serem perfeitos. Às vezes, basta um pequeno erro para fazer com que uma pessoa desabe interiormente.

     É um livro bem fino (cerca de 100 páginas), com frases sem grande profundidade. Mas aconselho sua leitura por todos. Não como a solução para todos os problemas, mas para servir de ponto de partida para uma reflexão interior. Quem verdadeiramente somos, o que verdadeiramente queremos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Clube da luta - Chuck Palahniuk

Um dos raros casos em que achei o filme melhor que o livro. Provavelmente por ter perdido, ao
lê-lo, o fator surpresa - parte essencial da trama.

Clube da luta, lançado em 1996, foi escrito por Chuck Palahniuk, sendo este seu primeiro livro publicado e seu maior sucesso, especialmente pela adaptação cinematográfica. Chuck nasceu em Pasco, Oregon, nos Estados Unidos, no ano de 1962. Jornalista de formação, teve em sua vida acontecimentos trágicos que acabaram por ter influência em sua obra, como o suicídio do avô e o assassinato do pai. Ele classifica seu estilo como ficção transgressional, com o frequente uso de mutilações e comportamentos sexuais inadequados em seus escritos. A narrativa é escrita com o uso de muitas frases curtas, com uma ironia cáustica.

Segundo o autor, a ideia de escrever o Clube da luta surgiu da insatisfação humana. A muitas vezes tediosa rotina da maioria das pessoas, o desejo de sempre ser ou fazer algo maior foi um dos alicerces do livro. São três os personagens principais: o narrador, cujo nome não é revelado; Tyler Durden, amigo do narrador; e Marla, que se apaixona por Tyler. O livro é ambientado em uma grande cidade, narrado em primeira pessoa, sendo o narrador um comum trabalhador em um escritório.

O narrador, é uma pessoa comum, que sofre com a infelicidade e com a solidão. Questiona as regras sociais, mas não tem coragem para mudar seu estilo de vida. Sua infelicidade o leva a frequentar grupos de ajuda para pessoas com câncer, em busca de um pouco de afeto. Em um desses grupos ele encontra Marla, uma jovem que também frequenta esses grupos tentando curar sua infelicidade. Essa situação toda muda quando seu apartamento explode, acabando com sua mobília e, principalmente , mudando seu estilo de vida. Sem ter para onde ir, ele acaba procurando por Tyler, um sujeito que ele havia conhecido há muito tempo. Acabam por se encontrar em um bar e, no estacionamento, Tyler pede ao narrador que lhe dê um soco, o mais forte que puder. Começa assim o Clube da luta.

Tyler é quase um antônimo do narrador: é forte, destemido, confiante. Sabe convencer as pessoas. E, sobretudo, não liga para as regras sociais. Ou melhor, deseja acabar com essas regras. Ao fundar o Clube da luta, ele acaba se tornando seu centro. Cada vez mais pessoas se juntam ao clube.

O Clube da luta surge como um local onde os homens simplesmente lutam um contra o outro. Sem regras. Lutam até que um dos dois - ou os dois! - caiam. Acaba sendo uma forma de alívio para todos, cansados de tudo que lhes é imposto, cansados da futilidade de suas vidas. No clube se sentem importantes, fazendo parte de algo. A primeira regra do clube é: "Nunca fale sobre o Clube da luta". Mas os homens acabam se reconhecendo na rua, ao verem passar por eles outros homens com os rostos deformados, sorrisos sem alguns dentes, olhos inchados... Com o tempo, o clube foi crescendo. Foram fundados outros clubes na cidade. Foram fundados clubes em outras cidades. Sempre sobre a liderança de Tyler. O clube acaba tomando ares de sociedade secreta... e é aqui que temos uma grande reviravolta!

O livro tem uma história bastante interessante. A maioria de nós tem uma vida "comum", fazendo coisas "comuns". Ao ler o livro, temos a tendência de fazer pequenos questionamentos sobre nosso estilo de vida. Não é difícil lê-lo nem compreendê-lo, e a narrativa vai prendendo o leitor ao longo do tempo. Faço apenas uma ressalva: leia o livro antes de ver o filme!


domingo, 5 de março de 2017

Sagarana - João Guimarães Rosa

Uma coisa que achei engraçada enquanto lia Sagarana: eu lia as falas dos personagens com sotaque! Talvez, por ser mineiro, tenha me identificado com o mineirês de algumas delas...

Sagarana foi o primeiro livro publicado de Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, foi um dos grandes expoentes da terceira geração do Modernismo, movimento cultural que teve forte repercussão no Brasil durante a primeira metade do século XX. Através de suas obras o regionalismo passou a ter novo destaque na literatura nacional, embora permeado de invenções linguísticas e de neologismos.

Aliás, a palavra Sagarana é um neologismo, fusão do termo saga (narrativa histórica ou lendária) com o prefixo -rana (termo tupi que expressa a ideia de semelhança). Como Guimarães Rosa era médico, acabou trabalhando em várias cidades do interior de Minas. Com isso, pôde utilizar em suas obras o linguajar e as atitudes de caipiras, bem como ambientar suas histórias no interior do estado.

O livro reúne nove contos: O burrinho pedrês, Traços biográficos de Lalino Salatiel ou A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha gente, São Marcos, Corpo fechado, Conversa de bois, A hora e vez de Augusto Matraga. Em boa parte deles há uma mistura de regionalismo com realismo fantástico. Alguns deles quase considero fábulas. 

Até que gostei da leitura. Achei cansativo apenas o fato de que não conhecia muitas palavras, ficando sem saber se eram inventadas ou se de fato existiam. Nomes de lugares, de aves, de peixes, que nunca ouvi falar. Pra entender de verdade a obra, deveria ter comigo dicionários e enciclopédias (ou o Google...), sendo que pararia minha leitura a cada parágrafo para consultar alguns termos. É um clássico da literatura brasileira, e todo clássico precisa ser lido.