POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
De tempos em tempos, gosto de ler um ou outro livro de autoajuda. É importante ler algumas
frases que nos façam ter uma postura mais leve diante da vida. Com isso, decidi reler
Heróis de Verdade, de Roberto Shinkyashiki.
Shinkyashiki é um médico psiquiatra e terapeuta, que se tornou famoso por suas palestras e seus livros de autoajuda. Uma das coisas que mais me agrada em seus livros é a ausência de certo esoterismo. Nada de "poder interior", "cura quântica", ou qualquer coisa do tipo. Ele trata de coisas mais práticas, mais reais, como mudança de atitude frente a certas situações.
Em Heróis de Verdade ele aborda algo que muito tem incomodado os seres humanos contemporâneos: a ânsia pela excelência. Achamos que precisamos ser bons em tudo. Mais ainda, que precisamos mostrar aos outros o quanto somos bons! Durante a leitura, me veio à mente o poema acima. Parece que todos temos uma vida imensamente maravilhosa. Que nenhum de nós erra. Pelo contrário, que todos somos fantásticos em tudo. Basta passearmos pelas redes sociais que veremos o quanto isso é perceptível. Consequências? Uma série de pessoas frustradas, por não atingirem seus objetivos. Por não serem perfeitos. Às vezes, basta um pequeno erro para fazer com que uma pessoa desabe interiormente.
É um livro bem fino (cerca de 100 páginas), com frases sem grande profundidade. Mas aconselho sua leitura por todos. Não como a solução para todos os problemas, mas para servir de ponto de partida para uma reflexão interior. Quem verdadeiramente somos, o que verdadeiramente queremos.