sexta-feira, 21 de abril de 2017

Heróis de verdade - Roberto Shinyashiki

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



     De tempos em tempos, gosto de ler um ou outro livro de autoajuda. É importante ler algumas
frases que nos façam ter uma postura mais leve diante da vida. Com isso, decidi reler Heróis de Verdade, de Roberto Shinkyashiki.
      Shinkyashiki é um médico psiquiatra e terapeuta, que se tornou famoso por suas palestras e seus livros de autoajuda. Uma das coisas que mais me agrada em seus livros é a ausência de certo esoterismo. Nada de "poder interior", "cura quântica", ou qualquer coisa do tipo. Ele trata de coisas mais práticas, mais reais, como mudança de atitude frente a certas situações.

     Em Heróis de Verdade ele aborda algo que muito tem incomodado os seres humanos contemporâneos: a ânsia pela excelência. Achamos que precisamos ser bons em tudo. Mais ainda, que precisamos mostrar aos outros o quanto somos bons! Durante a leitura, me veio à mente o poema acima. Parece que todos temos uma vida imensamente maravilhosa. Que nenhum de nós erra. Pelo contrário, que todos somos fantásticos em tudo. Basta passearmos pelas redes sociais que veremos o quanto isso é perceptível. Consequências? Uma série de pessoas frustradas, por não atingirem seus objetivos. Por não serem perfeitos. Às vezes, basta um pequeno erro para fazer com que uma pessoa desabe interiormente.

     É um livro bem fino (cerca de 100 páginas), com frases sem grande profundidade. Mas aconselho sua leitura por todos. Não como a solução para todos os problemas, mas para servir de ponto de partida para uma reflexão interior. Quem verdadeiramente somos, o que verdadeiramente queremos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Clube da luta - Chuck Palahniuk

Um dos raros casos em que achei o filme melhor que o livro. Provavelmente por ter perdido, ao
lê-lo, o fator surpresa - parte essencial da trama.

Clube da luta, lançado em 1996, foi escrito por Chuck Palahniuk, sendo este seu primeiro livro publicado e seu maior sucesso, especialmente pela adaptação cinematográfica. Chuck nasceu em Pasco, Oregon, nos Estados Unidos, no ano de 1962. Jornalista de formação, teve em sua vida acontecimentos trágicos que acabaram por ter influência em sua obra, como o suicídio do avô e o assassinato do pai. Ele classifica seu estilo como ficção transgressional, com o frequente uso de mutilações e comportamentos sexuais inadequados em seus escritos. A narrativa é escrita com o uso de muitas frases curtas, com uma ironia cáustica.

Segundo o autor, a ideia de escrever o Clube da luta surgiu da insatisfação humana. A muitas vezes tediosa rotina da maioria das pessoas, o desejo de sempre ser ou fazer algo maior foi um dos alicerces do livro. São três os personagens principais: o narrador, cujo nome não é revelado; Tyler Durden, amigo do narrador; e Marla, que se apaixona por Tyler. O livro é ambientado em uma grande cidade, narrado em primeira pessoa, sendo o narrador um comum trabalhador em um escritório.

O narrador, é uma pessoa comum, que sofre com a infelicidade e com a solidão. Questiona as regras sociais, mas não tem coragem para mudar seu estilo de vida. Sua infelicidade o leva a frequentar grupos de ajuda para pessoas com câncer, em busca de um pouco de afeto. Em um desses grupos ele encontra Marla, uma jovem que também frequenta esses grupos tentando curar sua infelicidade. Essa situação toda muda quando seu apartamento explode, acabando com sua mobília e, principalmente , mudando seu estilo de vida. Sem ter para onde ir, ele acaba procurando por Tyler, um sujeito que ele havia conhecido há muito tempo. Acabam por se encontrar em um bar e, no estacionamento, Tyler pede ao narrador que lhe dê um soco, o mais forte que puder. Começa assim o Clube da luta.

Tyler é quase um antônimo do narrador: é forte, destemido, confiante. Sabe convencer as pessoas. E, sobretudo, não liga para as regras sociais. Ou melhor, deseja acabar com essas regras. Ao fundar o Clube da luta, ele acaba se tornando seu centro. Cada vez mais pessoas se juntam ao clube.

O Clube da luta surge como um local onde os homens simplesmente lutam um contra o outro. Sem regras. Lutam até que um dos dois - ou os dois! - caiam. Acaba sendo uma forma de alívio para todos, cansados de tudo que lhes é imposto, cansados da futilidade de suas vidas. No clube se sentem importantes, fazendo parte de algo. A primeira regra do clube é: "Nunca fale sobre o Clube da luta". Mas os homens acabam se reconhecendo na rua, ao verem passar por eles outros homens com os rostos deformados, sorrisos sem alguns dentes, olhos inchados... Com o tempo, o clube foi crescendo. Foram fundados outros clubes na cidade. Foram fundados clubes em outras cidades. Sempre sobre a liderança de Tyler. O clube acaba tomando ares de sociedade secreta... e é aqui que temos uma grande reviravolta!

O livro tem uma história bastante interessante. A maioria de nós tem uma vida "comum", fazendo coisas "comuns". Ao ler o livro, temos a tendência de fazer pequenos questionamentos sobre nosso estilo de vida. Não é difícil lê-lo nem compreendê-lo, e a narrativa vai prendendo o leitor ao longo do tempo. Faço apenas uma ressalva: leia o livro antes de ver o filme!