sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem - Fabiana Morais


 João Batista, filho de Irene e de Elpídio, nasceu em Campo do Magé, área rural de Alagoinha, na caatinga pernambucana. Foi criado como agricultor, plantador de mandioca e de algodão. Mas, a despeito das aparências, João nunca foi, realmente, João. A despeito da aparência de seu corpo, João era, na verdade, Joicy. Mas, inicialmente, somente ela sabia disso. Mas seu segredo seria revelado a todos através da reportagem “O nascimento de Joicy”, da repórter Fabiana Morais.

Em sua obra, Fabiana mostra o quanto a questão identitária é complexa. O quanto a diversidade é pouco aceita socialmente. Mostra a dor e o sofrimento de quem se sente preso em um corpo com o qual não se identifica. Em uma narrativa envolvente e sensível, a repórter mostra um pouco do que Joicy representa para ela mesma e para a sociedade.

Fabiana Morais passa cerca de 150 dias acompanhando o dia-a-dia da transexual, acompanhando-a antes, durante e depois da cirurgia de redesignação. Ela narra esses momentos utilizando uma linguagem que confere à narrativa um tom emocional, o que confere uma rápida conexão com Joicy. E essa narrativa se inicia apresentando a personagem, com todas as suas lutas externas e internas. Ela não é, apenas, o centro da reportagem, mas se torna um símbolo das lutas enfrentadas por aqueles que lutam por serem aceitos, por pertencerem, verdadeiramente, à sociedade.

Morais alterna sua narrativa. Ora, ela está em primeira pessoa. Hora, em terceira pessoa. A voz de Joicy se destaca nos momentos mais importantes e cruciais da narrativa, de um modo que o leitor entende, com profundidade, suas ideias e suas emoções. Com essa técnica o leitor é convidado a entrar na mente da protagonista. Mas, por vezes, Fabiana faz a opção por uma narrativa praticamente imparcial,de modo que o leitor tenha uma compreensão mais ampla do contexto social e cultural no qual Joicy está inserida. É uma alternância interessante, que equilibra a objetividade da realidade social e a subjetividade da experiência individual.

Ao longo do texto, Fabiana Morais demarca claramente os pontos de vista que permeiam a vida de Joicy. A repórter mostra os momentos de engrandecimento, de empoderamento e de aceitação, tanto por parte da protagonista, quanto por parte da sociedade. Mas também mostra, de uma maneira um tanto quanto crua, as dificuldades e os preconceitos experienciados pela personagem principal da reportagem. Essa dualidade torna a narrativa mais rica e mais realista, mostrando que a vida de Joicy, apesar de peculiar, é composta por bons e maus momentos - como é, aliás, a vida de todos. Essa dualidade enriquece a narrativa, mostrando que a vida é composta de altos e baixos. As dificuldades e os percalços de Joicy são apresentados com enorme crueza, mas sua vida também é pintada como repleta de esperança.

A presença constante do ambiente social – com suas normas rígidas e expectativas – serve como pano de fundo para as experiências vividas por Joicy. Fabiana Morais habilmente contextualiza os desafios enfrentados pela protagonista dentro de uma sociedade que muitas vezes marginaliza aqueles que não se encaixam nos padrões tradicionais. Através dessa contextualização, o leitor consegue entender melhor as motivações por trás das ações de Joicy e a urgência por mudança em sua vida.

Em termos estilísticos, Fabiana utiliza simbolismos poderosos ao longo da narrativa. Elementos como cores, objetos pessoais ou até mesmo lugares específicos ganham significados profundos que refletem os estados emocionais da personagem. Esses simbolismos ajudam a criar uma camada extra à história, permitindo que o leitor interprete as experiências de Joicy em múltiplas dimensões.

Podemos entender que "O Nascimento de Joicy" não é, somente, uma história sobre desafios e vitórias de uma só pessoa, mas é uma história que, de alguma forma, mexe com a consciência e com as emoções do leitor. Nos faz refletir sobre alguns dos atuais dilemas de nossa sociedade. Fabiana Morais faz com que questionemos nossas próprias percepções sobre identidade e sobre aceitação. Ao contrário de muitas reportagens, “O Nascimento de Joicy” trata o tema central de forma bastante profunda. Além disso, a personagem é perfilada com muita habilidade e sensibilidade por Fabiana. 

Joice não é retratada por Morais de forma rasa, simples. Ela cria um retrato multifacetado da protagonista utilizando técnicas como os vários usos dos diálogos entre Joicy e as pessoas, além de uma certa alternância de perspectivas. Enfim, é possível concluir que “O Nascimento de Joicy” é mais que uma simples história de superação; é, sobretudo, uma obra que nos faz refletir sobre fenômenos sociais como aceitação, empoderamento, resiliência e discriminação. É o tipo de obra que se faz necessária para o desenvolvimento de qualquer sociedade.


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O Segredo de Joe Gould - Joseph Mitchell

 A revista New Yorker publicou, em 1942, o perfil de Joe Gould, um falante maltrapilho que ficava perambulando pelas ruas e bares de Greenwich Village, em Nova Iorque. Essa reportagem se tornou base para outro texto, O segredo de Joe Gould, que foi publicado em 1964 pela mesma revista. O autor das duas matérias foi Joseph Mitchell. Juntas, as duas formam o livro que é o tema desta resenha, O Segredo de Joe Gould.

Mitchell nasceu em 1908, em Fairmont, na Carolina do Norte. Filho de agricultor, cresceu na fazenda da família, mas não seguiu os passos do pai. Ingressou, em 1925, na Universidade da Carolina do Norte, e se graduou em jornalismo. Em 1929, ele se mudou para Nova Iorque, pois desejava se tornar repórter político. Trabalhou em alguns jornais da cidade, até que, em 1938, foi contratado pela revista New Yorker, onde permaneceu até a sua morte. Era um dos jornalistas mais talentosos da revista, o que fez com que ele tivesse uma espécie de “passe-livre”: ele poderia escrever sobre o que bem entendesse, no tempo que achasse conveniente. 

Joe Gould era um cidadão que frequentava, com assiduidade, o bairro de Greenwich Village. Perambulava pelas ruas do bairro com roupas grandes e gastas, doadas por algum amigo. Vivia sujo e bêbado. Dormia em albergues, pensões e, muitas vezes, nas ruas. Apesar disso, não podia ser considerado um mendigo qualquer. Era inteligente, com formação acadêmica em Harvard. Além de loquaz, chamava atenção por um livro que ele dizia escrever: a História Oral de Nosso Tempo. Joe Gould afirmava que estava escrevendo uma obra gigantesca e que, para se dedicar a essa obra, pediu demissão de seu trabalho e passou a viver como um mendigo. Seu perfil é traçado em camadas: aos poucos, Mitchell vai revelando detalhes sobre a vida de Joe. Além disso, o autor não se limita a narrar, mas emite seus pontos de vista, suas impressões e suas opiniões acerca dos acontecimentos.

O primeiro perfil que forma o livro, intitulado “O professor gaivota”, foi publicado em 1942. Nele, Mitchell mostra quem era e como vivia Joe Gould. Oriundo de uma família de posses, não quis ser médico, como desejava seu pai. Chegou, até mesmo, a trabalhar como jornalista, mas escrever a “História Oral de Nosso Tempo” se tornou seu objetivo de vida. Boêmio e excêntrico, dizia saber a “língua das gaivotas” - e isso é o que inspira o título do primeiro perfil. Já o segundo perfil é datado de 1964. Nele, cujo título é “O segredo de Joe Gould”, o jornalista se ocupa em mostrar o processo de construção do primeiro perfil, seu relacionamento com Joe, e o período final da vida do boêmio. E é nesse perfil que Mitchell revela o segredo de Gould. 

Mitchell tornou-se um modelo como perfilador. Sabia escutar os entrevistados. E esse livro é, praticamente, uma aula para quem quer trabalhar traçando perfis. MItchell ouvia seus entrevistados numa espécie de escuta ativa: prestava atenção em tudo o que lhe falavam. Era atento aos detalhes. E como, para ele, todas as pessoas tinham a mesma importância, ele escutava pacientemente todas as histórias, a fim de mostrar aos leitores da revista quem eram aquelas pessoas. Pessoas essas que, muitas vezes, eram deixadas de lado pela sociedade. E essas pessoas desnudavam suas vidas para ele pois, provavelmente, ele fosse um dos poucos a ter interesse no que eles tinham para falar. 

Outra coisa a ser destacada é o estilo de sua escrita jornalística. Em seus perfis, Mitchell não se continha a apenas escrevê-los de forma objetiva. Ele se utilizava de recursos artísticos e literários para contar suas histórias, de modo que o leitor acabava “entrando” no texto, quase que fazendo parte dele, às vezes. As reportagens eram publicadas como se fossem obras ficcionais. Tanto que a obra analisada é contada de tal forma que o leitor pode ter dificuldade de entender se a história é real ou ficcional. E essa forma de escrever acaba por deixar as histórias mais humanizadas, tendo pessoas comuns como centro. Isso cria uma certa identificação do leitor com a história, pois ele terá algo em comum com a vida e com as histórias dos perfilados. E ele usa todos esses recursos nos perfis de Gould.

Esse tipo de jornalismo foi mais difundido a partir da década de 1960, sendo denominado pelo jornalista Tom Wolfe de New Journalism (Novo Jornalismo), é também conhecido como Jornalismo Literário. O objetivo desse estilo é quebrar com os padrões de imparcialidade e de objetividade. No Brasil, João do Rio é um grande expoente desse estilo.

É possível concluir que o perfilamento é um estilo bastante atraente, tanto para quem produz o texto quanto para o leitor. Mas o jornalista que se propõe a traçar perfis precisa ser um excelente ouvinte. Deve saber ouvir, com paciência e sem julgamentos. Esse estilo é uma boa alternativa aos textos jornalísticos tradicionais, excessivamente objetivos, mas humanamente pobres.