sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O Segredo de Joe Gould - Joseph Mitchell

 A revista New Yorker publicou, em 1942, o perfil de Joe Gould, um falante maltrapilho que ficava perambulando pelas ruas e bares de Greenwich Village, em Nova Iorque. Essa reportagem se tornou base para outro texto, O segredo de Joe Gould, que foi publicado em 1964 pela mesma revista. O autor das duas matérias foi Joseph Mitchell. Juntas, as duas formam o livro que é o tema desta resenha, O Segredo de Joe Gould.

Mitchell nasceu em 1908, em Fairmont, na Carolina do Norte. Filho de agricultor, cresceu na fazenda da família, mas não seguiu os passos do pai. Ingressou, em 1925, na Universidade da Carolina do Norte, e se graduou em jornalismo. Em 1929, ele se mudou para Nova Iorque, pois desejava se tornar repórter político. Trabalhou em alguns jornais da cidade, até que, em 1938, foi contratado pela revista New Yorker, onde permaneceu até a sua morte. Era um dos jornalistas mais talentosos da revista, o que fez com que ele tivesse uma espécie de “passe-livre”: ele poderia escrever sobre o que bem entendesse, no tempo que achasse conveniente. 

Joe Gould era um cidadão que frequentava, com assiduidade, o bairro de Greenwich Village. Perambulava pelas ruas do bairro com roupas grandes e gastas, doadas por algum amigo. Vivia sujo e bêbado. Dormia em albergues, pensões e, muitas vezes, nas ruas. Apesar disso, não podia ser considerado um mendigo qualquer. Era inteligente, com formação acadêmica em Harvard. Além de loquaz, chamava atenção por um livro que ele dizia escrever: a História Oral de Nosso Tempo. Joe Gould afirmava que estava escrevendo uma obra gigantesca e que, para se dedicar a essa obra, pediu demissão de seu trabalho e passou a viver como um mendigo. Seu perfil é traçado em camadas: aos poucos, Mitchell vai revelando detalhes sobre a vida de Joe. Além disso, o autor não se limita a narrar, mas emite seus pontos de vista, suas impressões e suas opiniões acerca dos acontecimentos.

O primeiro perfil que forma o livro, intitulado “O professor gaivota”, foi publicado em 1942. Nele, Mitchell mostra quem era e como vivia Joe Gould. Oriundo de uma família de posses, não quis ser médico, como desejava seu pai. Chegou, até mesmo, a trabalhar como jornalista, mas escrever a “História Oral de Nosso Tempo” se tornou seu objetivo de vida. Boêmio e excêntrico, dizia saber a “língua das gaivotas” - e isso é o que inspira o título do primeiro perfil. Já o segundo perfil é datado de 1964. Nele, cujo título é “O segredo de Joe Gould”, o jornalista se ocupa em mostrar o processo de construção do primeiro perfil, seu relacionamento com Joe, e o período final da vida do boêmio. E é nesse perfil que Mitchell revela o segredo de Gould. 

Mitchell tornou-se um modelo como perfilador. Sabia escutar os entrevistados. E esse livro é, praticamente, uma aula para quem quer trabalhar traçando perfis. MItchell ouvia seus entrevistados numa espécie de escuta ativa: prestava atenção em tudo o que lhe falavam. Era atento aos detalhes. E como, para ele, todas as pessoas tinham a mesma importância, ele escutava pacientemente todas as histórias, a fim de mostrar aos leitores da revista quem eram aquelas pessoas. Pessoas essas que, muitas vezes, eram deixadas de lado pela sociedade. E essas pessoas desnudavam suas vidas para ele pois, provavelmente, ele fosse um dos poucos a ter interesse no que eles tinham para falar. 

Outra coisa a ser destacada é o estilo de sua escrita jornalística. Em seus perfis, Mitchell não se continha a apenas escrevê-los de forma objetiva. Ele se utilizava de recursos artísticos e literários para contar suas histórias, de modo que o leitor acabava “entrando” no texto, quase que fazendo parte dele, às vezes. As reportagens eram publicadas como se fossem obras ficcionais. Tanto que a obra analisada é contada de tal forma que o leitor pode ter dificuldade de entender se a história é real ou ficcional. E essa forma de escrever acaba por deixar as histórias mais humanizadas, tendo pessoas comuns como centro. Isso cria uma certa identificação do leitor com a história, pois ele terá algo em comum com a vida e com as histórias dos perfilados. E ele usa todos esses recursos nos perfis de Gould.

Esse tipo de jornalismo foi mais difundido a partir da década de 1960, sendo denominado pelo jornalista Tom Wolfe de New Journalism (Novo Jornalismo), é também conhecido como Jornalismo Literário. O objetivo desse estilo é quebrar com os padrões de imparcialidade e de objetividade. No Brasil, João do Rio é um grande expoente desse estilo.

É possível concluir que o perfilamento é um estilo bastante atraente, tanto para quem produz o texto quanto para o leitor. Mas o jornalista que se propõe a traçar perfis precisa ser um excelente ouvinte. Deve saber ouvir, com paciência e sem julgamentos. Esse estilo é uma boa alternativa aos textos jornalísticos tradicionais, excessivamente objetivos, mas humanamente pobres.


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